Victor Lereu de Assis - professor de educação física.
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O objetivo deste parecer é auxiliar no esclarecimento de uma nova atividade física de forma geral através da literatura como referência de base. Criada por David Belle em meados da década de 80, com o intuito de desenvolver o corpo e a superar seus medos e limites pessoais, o qual denominou de Le Parkour. Suas idéias centrais são influenciadas pelo Método Natural de Georges Hébert, com movimentos derivados do atletismo, escalada, ginástica olímpica e das artes marciais, constituem uma forma contemporânea de educação através do corpo.
Em função da evolução tecnológica e do agitado ritmo de vida nos grandes centros urbanos, o homem afastou-se gradualmente da natureza, e as atividades físicas sofreram esta influência. A forma de vida saudável, através de movimentos naturais, espontâneos e utilitários, foi substituída por exercícios determinados dentro de academias de ginástica, e com isso, o prazer proporcionado pelas atividades holísticas e naturais foram substituídas por uma busca frenética da estética, trazendo, muitas vezes, problemas físicos e emocionais.
Em meados da década de 80, nas ruas de Lisse, subúrbio de Paris, foi sistematizada uma nova atividade física, com as influências do salvamento realizado pelos bombeiros, pelo Método Natural de treinar o corpo desenvolvido por George Hébert e pelas técnicas de fuga criadas na guerra do Vietnã.
O Le Parkour fundamenta-se nos movimentos naturais do ser humano, e, na utilização de gestos técnicos adaptados da ginástica olímpica, atletismo e artes marciais. Visa o desenvolvimento da flexibilidade, da destreza corporal e da força explosiva, através da exploração do corpo em sua totalidade. Os movimentos realizados são conscientes, intencionais e sensíveis sob a ação dos gestos e movimentos essencialmente naturais; explorando a flexibilidade, o controle corporal e integrando as descobertas e utilizações das variadas formas de movimento e ritmos do corpo com diferentes intensidades.
O denominado Le Parkour, vem de encontro com muitos conceitos e fundamentos do Método Natural criado por Hébert no século XIX.
Georges Hébert, tenente da marinha francesa, elaborou um programa de treinamento que foi aplicado na Escola de Fuzileiros Navais de Lorient, com base nas observações que ele teve dos povos indígenas durante as suas viagens, sendo essas geralmente em colônias francesas. (SOARES, 2003)
O programa de treinamento, criado por Hébert, a partir das suas observações das atividades dos “povos primitivos”, consistia em uma série de 10 grupos de exercícios: marcha, corrida, salto, quadrupedia, trepar, equilíbrio, lançamentos, transporte, defesa e natação (SOARES, 2003)
Segundo Hébert: “esses 10 gêneros de exercícios, ou “atos naturais”, podem ser utilizados em sua forma simples, ou seja, a execução dos mesmos ou, então, em combinações variadas entre si, acrescidas de atividades ligadas à prática e aos divertimentos”. (1941, apud SOARES, 2003, p.27)
Durante as sessões de treino, notei a utilização de combinações de alguns exercícios dos 10 grupos, sendo eles: marcha, corrida, saltos, quadrupedia e exercícios de equilíbrio.
Hébert procurava “aumentar a resistência orgânica, realçar as aptidões para a execução de exercícios naturais e utilitários (seus 10 grupos) e, sobretudo, desenvolver a energia, a qualidade de ação, a virilidade, para então subornar esse conjunto de qualidades físicas bem treinadas a uma moral altruísta, física”. (SOARES, 2003, p.28).
Muitos traceurs “tradicionalistas” são contra a possibilidade de definir e/ou associar o Le Parkour com os esportes, em parte pela influência da visão de Hébert presente na criação do Le Parkour. Soares (2003, p.28) afirma que segundo a visão de Hébert:
a finalidade da educação física resume-se a “fazer seres fortes”, que são aqueles aperfeiçoados fisicamente de forma completa e útil e não os especialistas em um só gênero de exercício, ou ainda aqueles cujas proezas acrobáticas assombram grandes ou pequenas platéias. (SOARES, 2003, p.28)
aumentar a resistência orgânica, realçar as aptidões para a execução de exercícios naturais e utilitários (seus 10 grupos) e, sobretudo, desenvolver a energia, a qualidade de ação, a virilidade, para então subornar esse conjunto de qualidades físicas bem treinadas a uma moral altruísta, física. (ibidem)
Conforme citado anteriormente, embora muitos praticantes carreguem esta visão, alguns praticantes estão utilizando o Le Parkour como uma forma de exibicionismo a fim de lucrar financeiramente e/ou conquistar destaque na mídia.
Com movimentos dinâmicos, utilizando basicamente o próprio corpo como sobrecarga, a força torna-se uma das valências físicas mais utilizadas no Le Parkour.
Partindo do princípio básico em que o participante — chamado de traceur— passa por obstáculos da maneira mais rápida e direta possível, usando várias técnicas como pulo, rolamento e a escalada, a força predominante da prática trata-se da força rápida, que WEINECK (1999, p.226) define “como a capacidade do sistema neuro-muscular de movimentar o corpo ou parte do corpo (braços, pernas) com uma velocidade máxima”. (WEINECK,1999, p.378)
O aumento da força rápida gera por conseqüência um aumento da velocidade do praticante, que “é o principal requisito motor, o qual permite tanto a movimentação quanto a associação de outras capacidades do condicionamento – duração e força – e também da coordenação”. (ibidem)
Outra valência importante encontrada no Le Parkour é a flexibilidade. Podemos definir a flexibilidade como a capacidade e a característica de executar movimentos de grande amplitude, ou que requeiram movimentação de muitas articulações, que é trabalhada em exercícios de alongamento passivo e ativo, realizados durante a parte de aquecimento da sessão de treino, e pelo estímulo que ocorre, muitas vezes, na transposição de obstáculos que requerem movimentos com grande amplitude articular (principalmente da musculatura dos membros inferiores) com movimentos combinados de muitas articulações do corpo, (WEINECK, 1999)
Como há uma grande variedade de movimentos e condições para a transposição dos obstáculos, as qualidades físicas são desenvolvidas alternadamente durante o decorrer dos movimentos, e há a necessidade de capacidades coordenativas, que definimos como as capacidades determinadas, sobretudo, pelo processo de controle dos movimentos e devem ser regulamentados, e *que* estas capacidades capacitam o atleta (no caso, o traceur) para ações motoras previsíveis (estereótipos) e imprevisíveis (adaptação) e para o rápido aprendizado e domínios de movimentos nos esportes (WEINECK, 1999).
Sendo os movimentos do Le Parkour variados e espontâneos, a capacidade de dirigi-los baseia-se na precisão das percepções psicomotoras em combinação com as percepções visuais e auditivas. Durante a prática, alguns tipos de movimentos ou transposições solicitam um aprimoramento do equilíbrio, que Weineck (1999, p.518) define como “a capacidade de manutenção do equilíbrio durante uma atividade ou de recuperação do mesmo após uma atividade que o ameace”.
Como citado anteriormente, a prática do Le Parkour explora diversas qualidades físicas: força, flexibilidade, coordenação, velocidade, equilíbrio e outras. Sendo uma excelente atividade física para a melhora das aptidões físicas.
A partir do contato com alguns traceurs, tive a oportunidade de conhecer os traceurs do Clã PK Alvo, que foram os meus instrutores na prática do Le Parkour. Fui recebido por um grupo heterogêneo de praticantes com diferentes: idades, tempo de prática e níveis de treinamento, mas que compartilhavam da mesma visão sobre o Le Parkour. Fortemente influenciados pelo Método Natural de Georges Hébert, os traceurs do Clã PK Alvo encaram o Le Parkour como uma atividade física, que busca o aprimoramento constante dos movimentos e do corpo, priorizando o intuito construtivista da filosofia do Le Parkour na formação dos praticantes, e com um grande espírito solidário colocam-se à disposição para auxiliar outros traceurs a superarem suas dificuldades ou limitações temporárias.
Antes da fase de aquecimento, as pessoas que nunca praticaram são separadas dos praticantes, para que um traceur do clã explique aos iniciantes sobre o conceito e a filosofia do Le Parkour.
A sessão de treino começa efetivamente com a fase preparatória, que consiste em exercícios de aquecimento, com o intuito de preparação para a prática da modalidade, visando a obtenção do estado ideal psíquico e físico, a preparação cinética e coordenativa, e a prevenção de lesões. (WEINECK, 1999)
A fase preparatória do Le Parkour é dividida em dois momentos: o aquecimento geral e o específico.
O aquecimento geral possibilita aumentar a atividade do organismo como um todo através de exercícios que mobilizam grandes grupos musculares. (ibidem)
O aquecimento específico consiste de exercícios exclusivos para a modalidade, aquecendo assim os pequenos grupos musculares que são especialmente ativados na sessão de treino, e nesta parte, os traceurs são preparados para os primeiros exercícios da parte principal através de exercícios cada vez mais específicos. (ibidem)
A fase principal da sessão de treinamento compreende os exercícios que visam o aumento ou a manutenção do desempenho; e os exercícios têm caráter: técnico, tático (a aplicabilidade com que o traceur utiliza os movimentos), de condicionamento físico. (ibidem)
Os exercícios são executados respeitando a aceitação e necessidade individual de cada traceur, aumentando a dificuldade sistematicamente seguindo os parâmetros de: condicionamento, coordenação técnica, tática e força de vontade, entre outros
E a parte final tem a característica de introduzir ou acelerar o processo de recuperação, reduzindo gradualmente os estímulos através de exercícios de relaxamento.
Ao concluir este trabalho, tenho como finalidade conceituar o Le Parkour como uma nova atividade física como muitas outras existentes do movimento humano.
A criação do Le Parkour deve-se a uma necessidade presente do homem de executar movimentos naturais, espontâneos e utilitários, explorando as potencialidades de forma holística. Abandonando o culto absoluto da aparência física e o excessivo sentimento competitivo agregado na maioria das modalidades esportivas. O Le Parkour busca o desenvolvimento global do homem privilegiando o meio em que o cerca, resgatando assim o estado de espírito interior, resultado da harmonia pessoal, social e *da harmonia* com o meio.
Acredito que com o passar do tempo não haja só a integração do Le Parkour nas áreas de estudo da Educação Física, mas como em todas as ciências esportivas.
SOARES, C.L. Georges Hébert e o Método Natural: Nova sensibilidade, nova educação do corpo.
Revista Brasileira de Ciência do Esporte, v. 25, n. 1, p. 21-39, set. 2003.
WEINECK J. Treinamento Ideal - São Paulo: Manole; 1999.